Fator de queda na NR-35 de forma prática
Olá, aqui é o Herbert Bento do DDS Online e da Escola da Prevenção. No DDS de hoje vamos falar sobre uso do celular enquanto dirige. O tema de hoje é fator de queda.
Se você ministra treinamentos de Trabalho em Altura (NR-35) ou lidera Diálogos Diários de Segurança (DDS), sabe que existem conceitos teóricos difíceis de engolir no chão de fábrica. Um dos maiores desafios é fazer o trabalhador entender, de verdade, o que é o fator de queda.
A Norma Regulamentadora nº 35 é categórica em seu texto:
“A Análise de Risco (AR) prevista nesta norma deve considerar para o SPIQ (Sistema de Proteção Individual contra Quedas) os seguintes aspectos: c) o fator de queda.”
Mas quando começamos a desenhar gráficos e falar em Fator 0, 1 ou 2, muitos trabalhadores perdem o foco.
A física por trás do impacto parece distante da realidade deles, até que uma queda real aconteça.
Para resolver isso, o Técnico em Segurança do Trabalho Antonio Lima (@ts.antoniolima no Instagram) teve uma ideia que eu achei ótima.
Ele utilizou um talabarte em miniatura, um boneco de ação e um cabo esticado para demonstrar visualmente como a posição da ancoragem salva vidas.
Neste DDS, vamos entender a fundo o conceito técnico do fator de queda e como você pode replicar essa dinâmica prática para transformar seus treinamentos.
O que é o fator de queda?
Antes de irmos para a prática, precisamos alinhar o conceito. O fator de queda é uma razão matemática que determina a gravidade do impacto que o corpo do trabalhador e o sistema de ancoragem sofrerão em caso de um acidente.
A fórmula é simples:

O grande erro do senso comum é achar que o perigo está apenas na altura total do prédio ou da estrutura.
O que dita a força do impacto no corpo (força de choque) é a distância que o trabalhador cai antes de o talabarte começar a esticar e reter a queda.
Classificação do fator de queda
Para facilitar a explicação no seu DDS ou treinamento, dividimos o fator de queda em três níveis críticos, exatamente como demonstrado na dinâmica do boneco:
1. Fator 0 a 0,5 (cenário seguro)
- Posicionamento: o ponto de ancoragem está localizado acima da cabeça do trabalhador.
- Mecânica da queda: caso o trabalhador escorregue, a distância da queda livre será menor do que o comprimento total do talabarte.
- O impacto: o impacto no corpo e na estrutura é drasticamente reduzido. O absorvedor de energia do talabarte muitas vezes nem precisa se estender completamente, e a Zona Livre de Queda (ZLQ) necessária é mínima.

2. Fator 1 (cenário de atenção)
- Posicionamento: o ponto de ancoragem está na mesma linha de conexão do cinturão (geralmente no nível do peito ou das costas do trabalhador).
- Mecânica da queda: se houver a queda, a distância que o corpo vai percorrer no ar antes do travamento será igual ao tamanho do talabarte. Se o talabarte tem 1,5 metro, a queda livre será de 1,5 metro.
- O impacto: a força de choque começa a se tornar severa. O absorvedor de energia será ativado para garantir que o impacto no corpo não ultrapasse os limites biológicos suportáveis (6 kN).

3. Fator 2 (cenário crítico/alto risco)
- Posicionamento: o ponto de ancoragem está localizado abaixo dos pés do trabalhador.
- Mecânica da queda: Este é o pior cenário possível. Caso caia, o trabalhador vai percorrer toda a extensão do talabarte para cima da ancoragem e mais toda a extensão para baixo dela. Ou seja, a queda livre será o dobro do tamanho do talabarte. Se o talabarte tem 2 metros, a queda livre será de 4 metros antes de começar a frenagem.
- O impacto: o impacto é máximo. Há um risco altíssimo de o trabalhador colidir com o solo ou com estruturas inferiores (pois a Zona Livre de Queda necessária se torna gigante). Além disso, a força exercida sobre o ponto de ancoragem e sobre o corpo do trabalhador é extrema, podendo causar lesões internas graves mesmo usando o absorvedor.

Por que a dinâmica do boneco funciona tanto?
Quando o TST Antonio Lima segura o boneco acima da linha de vida (simulando o fator 0), o trabalhador vê que o boneco mal sai do lugar se for solto.
Quando ele mostra a situação de fator 2 e o solta, o “tranco” visual que o brinquedo leva no cabo faz a ficha do trabalhador cair na hora.
O cérebro humano é altamente visual.
No chão de fábrica, ver o boneco despencar o dobro do tamanho do seu cabo gera um impacto psicológico muito maior do que qualquer slide de PowerPoint cheio de vetores e setas.
Como aplicar essa ideia no seu próximo treinamento?
Montar esse kit de demonstração é extremamente barato e o retorno em engajamento é imediato:
- O boneco: use uma figura de ação articulada (tipo um Max Steel ou similar).
- O talabarte: um pedaço de corda fina ou elástico de espessura firme, simulando a fita do talabarte. Você pode fazer uma pequena dobra costurada ou com fita isolante para simular o absorvedor de energia.
- A demonstração: estique um cabo de aço ou uma corda resistente na sala de treinamento (simulando a linha de vida) e faça os três testes. Peça para os próprios trabalhadores soltarem o boneco para sentirem “o peso” do impacto.
E você, como ensina a NR-35?
Inovar na Segurança do Trabalho não exige orçamentos milionários, exige vontade de se conectar com quem está na ponta executando o serviço.
Agradecemos ao colega @ts.antoniolima (Instagram) por compartilhar essa excelente ferramenta pedagógica com a comunidade.
Gostou dessa dinâmica? Me segue lá no Instagram para receber mais ideias: @herbertbentof.