AEP no home office: como avaliar quem trabalha em casa

Olá! Seja bem-vindo a mais um artigo do DDS Online. O tema de hoje é AEP no home office.
No artigo Teletrabalho no PGR, vimos que quem trabalha em casa precisa estar no gerenciamento de riscos da empresa. Agora vamos à parte prática: como fazer a AEP (Avaliação Ergonômica Preliminar) de alguém que você não vê todos os dias.
Este artigo também foi adaptado da reportagem “Distância Segura”, da Revista Proteção (nº 418, outubro de 2026). A fonte completa está no fim do texto.
A NR-17 permite a AEP a distância?
Sim. A NR-17 não exige que a avaliação seja presencial. Também não obriga o uso de uma ferramenta específica. O item 17.3.1.1 diz:
“A avaliação ergonômica preliminar das situações de trabalho pode ser realizada por meio de abordagens qualitativas, semiquantitativas, quantitativas ou combinação dessas, dependendo do risco e dos requisitos legais, a fim de identificar os perigos e produzir informações para o planejamento das medidas de prevenção necessárias.”
E o trabalhador precisa participar. O item 17.3.8 é claro:
“A organização deve garantir que os empregados sejam ouvidos durante o processo da avaliação ergonômica preliminar e na AET.”
No home office, ouvir o trabalhador não é só uma exigência. É a principal fonte de informação. Você não está lá para ver.
Questionário sozinho não é avaliação
Esse é o erro mais comum. A empresa manda um formulário, o trabalhador marca “sim” em tudo, e o assunto é dado como encerrado.
Na reportagem da Revista Proteção, o auditor fiscal do Trabalho Mauro Müller alerta que um checklist genérico ou uma autodeclaração só para cumprir tabela dificilmente mostra uma avaliação adequada. Falta diálogo com o trabalhador, análise da atividade e verificação dos problemas relatados.

Por outro lado, segundo ele, uma combinação bem estruturada de entrevista, observação a distância e informações sobre o posto pode ser suficiente para a AEP.
A fisioterapeuta e ergonomista Hozana Ramirez, também ouvida pela revista, vai na mesma direção. Para ela, a avaliação remota precisa ser uma análise estruturada da situação real de trabalho, e não apenas um questionário.
As ferramentas da AEP no home office
Cada ferramenta tem um papel. O ideal é combinar mais de uma.
Questionário ou checklist
Serve como levantamento inicial. Pergunte sobre mobiliário, equipamentos, iluminação, ruído, temperatura, postura, pausas, jornada e organização das atividades.
Inclua também perguntas sobre carga de trabalho, autonomia e apoio da liderança.
O questionário não fecha a avaliação. Ele mostra onde olhar com mais atenção.
Entrevista individual
Pega o que o questionário não pega. Como é a rotina? Quais as dificuldades? Que “jeitinhos” a pessoa usa para dar conta do trabalho? Como ela percebe a carga, o ritmo e as pausas?
A entrevista mostra a diferença entre o trabalho como a empresa imagina e o trabalho como ele acontece de fato.
Fotos e vídeos
Ajudam a ver o mobiliário, a posição dos equipamentos, o espaço e a iluminação.
Peça imagens com orientação clara: quais ângulos, o que deve aparecer. E o que não precisa aparecer: outros cômodos, objetos pessoais, outras pessoas da casa.
Videochamada
Permite uma avaliação orientada e em tempo real. Você pode pedir que o trabalhador mostre o posto de diferentes ângulos e simule tarefas comuns. Dá para observar a postura, o alcance dos equipamentos e a organização do espaço.
E dá para orientar na hora. Muitas vezes, um ajuste simples se resolve ali mesmo.
Escuta coletiva
Reuniões ou grupos com vários trabalhadores ajudam a achar problemas que não são individuais. Se muita gente da mesma área relata sobrecarga, falta de pausa ou excesso de reuniões, o problema provavelmente está na organização do trabalho.
Indicadores
Dados de saúde e de gestão mostram tendências. Queixas de dor, afastamentos, absenteísmo, horas extras, jornadas que se estendem.
Use sempre de forma agregada, preservando o sigilo das informações individuais. E não atribua automaticamente um problema ao home office. Analise o conjunto.
O que observar no posto de casa
O ergonomista Alison Klein, ouvido pela revista, resume numa palavra o problema mais comum do home office: improviso. Mesa de jantar, bancada da cozinha, sofá, cama. Nas palavras dele, “a casa não estava preparada para esse ambiente. O trabalho é que chegou lá”.
Na avaliação, observe:
- Cadeira: tem regulagem de altura? Os braços fixos impedem que a pessoa chegue perto da mesa?
- Mesa: altura e profundidade. Há gaveta ou estrutura que tira espaço para as pernas?
- Monitor: está na altura e na distância adequadas? Há reflexo de janela ou lâmpada na tela?
- Notebook: é usado direto na mesa? Para elevar a tela com um suporte, a pessoa precisa de teclado e mouse separados.
- Pés: ficam apoiados no chão ou num apoio?
- Iluminação: a luz é suficiente? Vem de que lado?
- Ruído e temperatura: principalmente em jornadas longas.
Um detalhe importante: o objetivo não é que a pessoa fique o dia todo numa postura “perfeita”. Hozana Ramirez lembra, na reportagem, que variar a postura ao longo do dia também importa. Uma boa avaliação inclui as pausas e a alternância de posições.
O que observar além do posto
Um posto adequado não garante um trabalho saudável. A pessoa pode ter cadeira, mesa e monitor corretos e, mesmo assim, ficar horas sem levantar porque a agenda está lotada de reuniões.

Na entrevista e na escuta coletiva, pergunte também sobre:
- duração real da jornada;
- quantidade de reuniões seguidas;
- mensagens e cobranças fora do horário;
- pausas: existem na prática?
- interrupções da casa e do trabalho;
- dificuldade de desligar ao fim do dia.
Esses pontos levam aos fatores psicossociais, que também entram no PGR. Veja mais no artigo sobre Fatores Psicossociais.
Roteiro prático em 6 passos
Juntando as ferramentas, um roteiro possível:
- Questionário para todos os teletrabalhadores, com perguntas sobre posto e organização do trabalho.
- Triagem: separe quem relatou problemas, dores ou condições inadequadas.
- Entrevista e videochamada com quem precisa de atenção. Peça fotos quando for útil.
- Orientação e adequação: oriente na hora o que for simples. Encaminhe o que depende da empresa, como mobiliário e equipamentos.
- Validação: depois da mudança, peça uma nova foto ou faça uma nova chamada para confirmar se funcionou.
- Registro: lance os resultados no inventário de riscos do PGR e acompanhe com os indicadores.
O passo 5 é o que mais se esquece. Sem ele, não dá para saber se a medida resolveu.
Quando partir para a AET
A AEP pode mostrar que é preciso ir mais fundo. A NR-17 define quando a AET é obrigatória, no item 17.3.2:
“A organização deve realizar Análise Ergonômica do Trabalho – AET da situação de trabalho quando:
a) observada a necessidade de uma avaliação mais aprofundada da situação;
b) identificadas inadequações ou insuficiência das ações adotadas;
c) sugerida pelo acompanhamento de saúde dos trabalhadores, nos termos do Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional – PCMSO e da alínea “c” do subitem 1.5.5.1.1 da NR 01; ou
d) indicada causa relacionada às condições de trabalho na análise de acidentes e doenças relacionadas ao trabalho, nos termos do Programa de Gerenciamento de Riscos – PGR.”
No home office, a AET também precisa respeitar os limites da casa e a privacidade do trabalhador.
Privacidade: avaliar sem vigiar
A avaliação entra, mesmo que pela câmera, num espaço privado. Alguns cuidados:
- Consentimento: visita técnica à residência só com autorização do morador.
- Finalidade: fotos e vídeos só para a avaliação, e só do que for necessário.
- Acesso e guarda: defina quem vê as imagens e por quanto tempo elas ficam guardadas. Imagens da casa são dados pessoais e devem ser tratadas conforme a LGPD.
- Dados agregados: horários de mensagens, reuniões e uso de sistemas ajudam a entender a organização do trabalho. Mas, segundo Fabiana Raulino, da Abergo, ouvida pela revista, esses dados devem ser analisados de forma agregada. A vigilância individual pode virar, ela mesma, um fator de risco psicossocial.
Como algumas empresas fazem
A reportagem da Revista Proteção traz três exemplos:
- BASF: uma consultoria especializada avalia o posto doméstico com questionário, fotos e entrevista por vídeo. O ergonomista dá orientações individuais, a empresa oferece ajuda de custo para as melhorias e, depois, o trabalhador envia novas fotos para validação.
- TOTVS: a autoavaliação do trabalhador é a porta de entrada. Quando aparece um problema, ergonomistas e a saúde ocupacional aprofundam o caso. Exames, absenteísmo, queixas e pesquisas de clima ajudam no acompanhamento.
- Volkswagen Caminhões e Ônibus (Resende/RJ): uma consultoria fez as avaliações por videochamada, com orientação durante o próprio contato. Segundo a revista, foram 1.018 avaliações na fase inicial.
Os três modelos têm algo em comum: a avaliação gera uma ação, e a ação é acompanhada.
Conclusão
A distância não impede a AEP. Ela só muda a forma de coletar as informações.
Combine ferramentas. Ouça o trabalhador. Olhe o posto, mas olhe também a organização do trabalho. Registre tudo no PGR. E confirme se as medidas funcionaram.
Para o trabalhador, preparei um DDS sobre home office com dicas de postura, pausas e hora de desligar: [LINK DO POST 3 – DDS HOME OFFICE – EM BREVE].
Se você precisa de modelos de documentos, treinamentos ou planilhas, formulários e checklists de SST para o dia a dia, conheça o os materiais da Escola da Prevenção.
AEP no home office – Fonte e legislação
Este artigo foi adaptado da reportagem “Distância Segura”, de Marla Cardoso, publicada na Revista Proteção, nº 418, outubro de 2026.
Legislação citada:
- NR-17 – Ergonomia, itens 17.3.1.1, 17.3.2 e 17.3.8
- NR-01 – Disposições Gerais e Gerenciamento de Riscos Ocupacionais
- Lei 13.709/2018 – Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD)





