Cuidados no Uso de Agrotóxicos

Olá, seja bem vindo ao DDS de hoje. Vamos conversar sobre agrotóxicos? Eu sou o Herbert Bento, fundador do DDS Online e criador dos Pendrives de Segurança do Trabalho.
O que são agrotóxicos e por que exigem cuidado?
Agrotóxicos, também conhecidos como defensivos agrícolas ou pesticidas, são produtos químicos, físicos ou biológicos desenvolvidos para controlar pragas, doenças e plantas daninhas que afetam as plantações.
Eles são, por sua natureza, venenos. Foram criados para matar seres vivos.
Essa premissa básica deve guiar todas as nossas ações.
Podemos classificar os agrotóxicos em:
- herbicidas: combatem plantas invasoras (o “mato”).
- inseticidas: combatem insetos.
- fungicidas: combatem fungos.
- acaricidas: combatem ácaros.
- nematicidas: combatem nematoides.
O fato de serem eficazes no campo significa que eles também possuem potencial para causar danos à saúde humana e ao meio ambiente se não forem utilizados com o rigor técnico e de segurança.
Não existe “agrotóxico fraco” ou “inofensivo”. Existe o produto certo para a finalidade certa, e o procedimento de segurança que é inviolável para todos eles.
As portas de entrada do risco: vias de exposição
Para que os agrotóxicos causem dano, ele precisa entrar em nosso corpo.

Conhecer as vias de exposição é o primeiro passo para bloqueá-las. As vias possíveis são:
- dérmica (pele): esta é a principal e mais comum via de contaminação. O contato do produto com a pele, seja na forma líquida, de névoa (durante a pulverização) ou sólida (pó), permite a absorção do químico para a corrente sanguínea. Áreas como o couro cabeludo, testa, pescoço e virilha absorvem os produtos químicos muito mais rapidamente do que a palma da mão, por exemplo. Um pequeno rasgo na luva ou uma manga de camisa levantada pode ser uma porta aberta para a intoxicação.
- respiratória (inalação): a inalação de vapores, névoas ou poeiras durante o preparo da calda ou a aplicação é extremamente perigosa. As partículas entram diretamente nos pulmões, onde são rapidamente absorvidas para o sangue e distribuídas por todo o corpo, podendo afetar o cérebro e outros órgãos vitais em questão de minutos.
- oral (ingestão): a ingestão pode ocorrer de forma acidental e, muitas vezes, por negligência. Levar a mão suja de produto à boca, comer, beber ou fumar na área de trabalho, ou armazenar agrotóxicos em embalagens de alimentos e bebidas (uma prática criminosa e infelizmente comum) são as principais causas.
- ocular (olhos): os olhos são extremamente sensíveis e absorvem produtos químicos com grande facilidade. Um respingo durante a mistura da calda ou a deriva da pulverização pode causar desde irritações severas até lesões permanentes na visão, além de ser uma porta de entrada do químico para o organismo.
Os efeitos no organismo: intoxicação aguda e crônica
A intoxicação por agrotóxicos pode se manifestar de duas formas distintas, e ambas são igualmente perigosas.
- Intoxicação aguda: ocorre durante ou logo após a exposição (minutos ou horas). Os sintomas são claros e imediatos, muitas vezes confundidos com outras doenças. Incluem:
- Dor de cabeça, tontura, fraqueza
- Náuseas, vômitos, cólicas abdominais, diarreia
- Visão turva, pupilas contraídas
- Salivação e suor excessivos
- Irritação na pele e nos olhos
- Tosse, dificuldade para respirar
- Tremores, convulsões e, em casos graves, coma e morte.
- Intoxicação crônica: é a mais silenciosa e traiçoeira. Resulta de exposições repetidas a pequenas doses do produto ao longo de meses ou anos. O trabalhador pode não sentir nada no dia a dia, mas o veneno vai se acumulando no corpo, causando danos irreversíveis. Os efeitos podem incluir:
- Dificuldades para dormir, esquecimento, irritabilidade
- Danos permanentes ao sistema nervoso (neuropatias)
- Danos ao fígado e aos rins
- Infertilidade e problemas reprodutivos
- Desenvolvimento de alergias e problemas respiratórios crônicos
- Câncer (diversos tipos estão associados à exposição a agrotóxicos).
A intoxicação crônica é um inimigo invisível.
É por isso que as medidas de segurança devem ser seguidas sempre, mesmo que você se sinta bem e mesmo que a exposição pareça mínima.
A muralha de proteção: medidas de controle e prevenção
A segurança na aplicação de agrotóxicos se baseia em uma hierarquia de controles, do mais eficaz para o menos eficaz.
Controles de engenharia e administrativos (a base de tudo)
- Leitura do rótulo e da bula: antes de sequer tocar no produto, leia atentamente o rótulo e a bula. Eles contêm informações vitais sobre a toxicidade, os EPIs necessários, o preparo da calda, o período de carência e os primeiros socorros.
- Ficha de informação de segurança (FDS, ex-FISPQ): este é o documento mais completo sobre o produto. A empresa tem a obrigação de fornecê-lo e o trabalhador tem o direito de consultá-lo.
- Equipamentos calibrados e em bom estado: pulverizadores com vazamentos, bicos gastos ou mangueiras rachadas são fontes diretas de contaminação. A manutenção preventiva é segurança.
- Condições climáticas: nunca aplique agrotóxicos com ventos fortes (risco de deriva), em horários de calor intenso (aumenta a volatilidade e o risco de inalação) ou com ameaça de chuva (inutiliza a aplicação e contamina o solo e a água).
- Sinalização e isolamento da área: a área tratada deve ser claramente sinalizada com placas de advertência, informando o produto utilizado, a data da aplicação e o período de reentrada. Ninguém, absolutamente ninguém, pode entrar na área antes do fim desse período sem os EPIs adequados.
- Armazenamento seguro: os agrotóxicos devem ser guardados em local específico, trancado, ventilado, sinalizado, separado de alimentos, rações e moradias.
Equipamentos de proteção individual (EPI) – a última barreira
O EPI é sua armadura pessoal contra os agrotóxicos. Ele só funciona se for o correto para o risco, se estiver em bom estado e se for utilizado da maneira certa. O conjunto completo para aplicação de agrotóxicos é conhecido como “EPI hidrorrepelente”.
- Proteção da cabeça: boné árabe (touca com proteção para pescoço e ombros) de material impermeável.
- Proteção dos olhos e face: viseira facial ou óculos de segurança tipo ampla visão. A viseira oferece maior proteção contra respingos.
- Proteção respiratória: respirador com filtro químico adequado para vapores orgânicos e partículas. O filtro tem vida útil e deve ser trocado periodicamente conforme especificação do fabricante.
- Proteção do corpo: calça e blusa de manga comprida de material hidrorrepelente. Por cima, um avental impermeável (PVC ou similar) deve ser usado durante o preparo da calda e limpeza dos equipamentos.
- Proteção das mãos: luvas de nitrila ou neoprene, de cano longo. Luvas de couro ou tecido não servem, pois absorvem o produto. Verifique se não há furos antes de cada uso.
- Proteção dos pés: botas de PVC de cano longo, com a barra da calça usada por fora da bota (para evitar que o produto escorra para dentro).
Colocação e retirada do EPI:
A sequência é importante para evitar a autocontaminação.
- Para vestir: calça, blusa, botas, avental, respirador, viseira/óculos, boné árabe e, por último, as luvas (por cima das mangas da blusa).
- Para retirar (a etapa mais crítica!): siga a ordem inversa, lavando as luvas ainda calçadas antes de começar a retirar os outros itens. Retire o boné, a viseira, o avental, a blusa e a calça. Retire as botas. Por último, retire as luvas. Lave as mãos e o rosto imediatamente após.
Procedimentos pós-aplicação: o trabalho não acaba no campo
- Higiene pessoal: ao final do dia de trabalho, o operador deve tomar um banho completo com água e sabão, lavando bem o corpo e os cabelos. Nunca volte para casa com as roupas de trabalho. Essas roupas devem ser lavadas separadamente das roupas da família, usando luvas para manuseá-las.
- Limpeza dos equipamentos: os pulverizadores devem ser limpos em local apropriado, longe de rios, lagos ou poços. A água da lavagem contém resíduos e deve ser descartada corretamente, muitas vezes pulverizando-a na própria área tratada.
- Tríplice lavagem das embalagens: esta é uma etapa obrigatória por lei e fundamental para a segurança e proteção do meio ambiente. Para embalagens rígidas:
- Esvazie completamente a embalagem no tanque do pulverizador.
- Adicione água limpa até 1/4 do volume da embalagem.
- Tampe bem e agite por 30 segundos.
- Despeje a água da lavagem (a “água de enxágue”) dentro do tanque do pulverizador.
- Repita o processo mais duas vezes.
- Após a terceira lavagem, inutilize a embalagem, perfurando o fundo.
- Descarte correto: as embalagens vazias e tríplice lavadas devem ser armazenadas em local seguro e devolvidas na unidade de recebimento indicada na nota fiscal de compra. Jamais queime, enterre ou reutilize essas embalagens.
Em caso de emergência: ação rápida salva vidas
Se um acidente ocorrer e alguém for contaminado:
- Afaste a vítima da área de exposição imediatamente.
- Retire as roupas contaminadas com cuidado.
- Lave a pele e os cabelos da vítima com água e sabão em abundância. Se o contato for nos olhos, lave-os em água corrente por pelo menos 15 minutos.
- Procure atendimento médico IMEDIATAMENTE. Não espere os sintomas piorarem.
- Leve o RÓTULO, a BULA ou a FDS (antiga FISPQ) do produto para o médico. Esta informação é crucial para que o tratamento correto seja administrado.
- Em caso de dúvida, ligue para o Disque-Intoxicação da ANVISA: 0800-722-6001.
Conclusão
Os agrotóxicos são uma ferramenta que, como muitas outras no nosso trabalho, oferecem riscos. A diferença é que esses riscos podem ser invisíveis e ter consequências para toda a vida. A segurança não é uma opção, é a única maneira de realizar este trabalho.
Depende de cada um de nós seguir os procedimentos, usar os EPIs corretamente, cuidar dos equipamentos e, principalmente, zelar pela segurança do colega ao lado. Não existe “jeitinho” ou “atalho” quando lidamos com veneno.
Nossa saúde e a tranquilidade de nossas famílias dependem do rigor e da seriedade com que encaramos nosso trabalho hoje e todos os dias. Vamos trabalhar com segurança com agrotóxicos e voltar para casa com saúde.
Obrigado pela atenção de todos.
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